
Naquela esquina sempre tão movimentada hoje não tinha ninguém...
Não tinham buzinas, não tinham pedestres, não tinham movimentos, só tinha eu!
Eu fiquei ali esperando o primeiro carro passar, só para me obrigar a esperá-lo, e eu achar que o mundo está normal.
Não tinham carros sobre a ponte, nem corriam carros abaixo dela.
Eu vi apenas uma moça de vermelho.
Ela era a única coisa que se mexia, mexeu comigo.
Sua blusa vermelha balançava no mesmo ritmo dos seus passos. Em câmera lenta.
A ponte pareceu não ter fim para ela. Ela ficava cada vez mais longe do outro lado.
Foi o primeiro dia que eu percebi que no meio daquela avenida tinha uma ponte.
Com começo, meio, fim e uma moça.
Olhei atentamente todos os seus passos, um a um.
Poucos foram os carros que me atravessaram a frente enquanto eu a olhava.
Estávamos parados. Eu e o mundo.
Passei a ponte.
Nem na saída da escola tinham crianças correndo hoje.
Consegui acompanhar, por 2 faróis, sem piscar, duas moças que atravessavam a Dr. Arnaldo.
Consegui acompanhar, por 2 faróis, sem piscar, duas moças que atravessavam a Dr. Arnaldo.
As acompanhei até que entrassem na igreja, igualmente vazia. Nem Deus devia estar lá.
Olhei pelo caminho todo, e não cruzei ninguém senão as três moças que me fizeram cogitar a possibilidade de o mundo não estar parado.
Na padaria, sempre igualmente movimentada, hoje tinham 3 mesas, apenas.
Nem o corre-corre dos pinguins que servem chopp tinha hoje.
Os garçons estavam aglomerados em frente a TV, deviam estar vendo alguma tragédia de fim de tarde.
Estavam todos ali, parados, e só a TV parecia se mexer.
Fui andando rumo à onde sempre me vejo indo.
Na alameda de árvores que sai do parque vi na minha frente, lá longe, uma velhinha.
Parada como uma estátua, exatamente como até as folhas das árvores estavam.
Eu fui me aproximando.
Nosso intervalo parecia tão grande quanto o começo e o fim da ponte.
Ao desviar dela, pude ver o que a fazia estar parada ali.
Ela caçava palavras num pequeno livreto, em silêncio, estática, ela buscava palavras sem som.
Segui caminhando até aqui.
Esquina a esquina, eu ia procurando algo que se mexesse. Em vão, tudo estava parado.
Alguém esqueceu de girar a roda da vida hoje.
O peão da Terra.
O motor dos corações, nem eles, se engrenaram.
Eu parei com tudo, ali, naquela esquina.
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